Entremos na morte com alegria! Caramba

by Álvaro de Campos · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

Entremos na morte com alegria! Caramba

O ter que vestir fato, o ter que lavar o corpo,

O ter que ter razão, semelhanças, maneiras e modos;

O ter rins, fígado, pulmões, brônquios, dentes.

Coisas onde há dor de [...] e moléstias

(Merda para isso tudo!)


Estou morto, de tédio também

Eu bato, a rir, com a cabeça nos astros

Como se desse com ela num arco de brincadeira

Estendido, no carnaval, de um lado ao outro do corredor,

Irei vestido de astros; com o sol por chapéu de coco

No grande Carnaval do espaço entre Deus e a vida.


Meu corpo é a minha roupa de baixo; que me importa

Que o seu carácter de lixo seja terra no jazigo

Que aqui ou ali a coma a traça orgânica toda?

Eu sou Eu.

Viva eu porque estou morto! Viva!

Eu sou eu.

Que tenho eu com a roupa-cadáver que deixo?

Que tem o cu com as calças?

Então não teremos nós cuecas por esse infinito fora?

O quê, o para além dos astros nem me dará outra camisa?

Bolas, deve haver lojas nas grandes ruas de Deus.


Eu, assombroso e desumano,

Indistinto a esfinges claras,


Vou embrulhar-me em estrelas

E vou usar o Sol como chapéu de coco

Neste grande carnaval do depois de morrer.

Vou trepar, como uma mosca ou um macaco pelo sólido

Do vasto céu arqueado do mundo,

Animando a monotonia dos espaços abstractos

Com a minha presença subtilíssima.

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