Depois de quando deixei de pensar em depois

by Álvaro de Campos · 3-1-1935
Published 03/01/1935

Depois de quando deixei de pensar em depois

Minha vida tornou-se mais calma —

Isto é, menos vida.

Passei a ser o meu acompanhamento em surdina.


Olho, do alto da janela baixa,

As garotas que dançam a brincar na rua.

O seu destino inevitável

Dói-me.

Vejo-lho no vestido entreaberto nas costas, e dói-me.


Grande cilindro, quem te manda cilindrar esta estrada

Que está calçada de almas?


(Mas a tua voz interrompe-me

— Voz alta, lá de fora do jardim, rapariga —

E é como se eu deixasse

Cair irresolutamente um livro no chão.)


Não teremos meu amor, nesta dança da vida.

Que fazemos por brincadeira natural,

As mesmas costas desabotoadas

E o mesmo decote a mostrar-nos a pele por cima da camisa suja?

#alienation #alvaro de campos #existentialism #fernando pessoa #melancholy #unrequited love #urban life

2 likes

Related poems →

More by Álvaro de Campos

Read "Depois de quando deixei de pensar em depois" by Álvaro de Campos. One of the best and most popular poems on The Poet's Place. Discover more trending, inspiring, and beautiful poetry by Álvaro de Campos.