Meu pobre amigo, não tenho compaixão que te dar.

by Álvaro de Campos · 9-7-1930
Published 09/07/1930

Meu pobre amigo, não tenho compaixão que te dar.

      A compaixão custa, sobretudo sincera, e em dias de chuva.

Quero dizer: custa sentir em dias de chuva.

Sintamos a chuva e deixemos a psicologia para outra espécie de céu.


Com que então problema sexual?

Mas isso depois dos quinze anos é uma indecência.

Preocupação com o sexo oposto (suponhamos) e a sua psicologia —

Mas isso é estúpido, filho.

O sexo oposto existe para ser procurado e não para ser compreendido.

O problema existe para estar resolvido e não para preocupar.

Compreender é ser impotente.

E você devia revelar-se menos.

"La Colére de Samson", conhece?

"La femme, enfant malade et [...]"

Mas não é nada disso.

Não me mace, nem me obrigue a ter pena!

Olhe: tudo é literatura.

Vem-nos tudo de fora, como a chuva.

A maneira? Se nós somos páginas aplicadas de romances?

Traduções, meu filho.

Você sabe porque está tão triste? É por causa de Platão,

Que você nunca leu.

E um soneto de Petrarca, que você desconhece, sobrou-lhe errado,

E assim é a vida.

Arregace as mangas da camisa civilizada

E cave terras exactas!

Mais vale isso que ter a alma dos outros.

Não somos senão fantasmas de fantasmas,

E a paisagem hoje ajuda muito pouco.

Tudo é geograficamente exterior.

A chuva cai por uma lei natural

E a humanidade ama porque ama falar no amor.

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