Os deuses desterrados,

by Ricardo Reis · 12-6-1914
Published 12/06/1914

Os deuses desterrados,

Os irmãos de Saturno,

Às vezes, no crepúsculo

Vêm espreitar a vida.


Vêm então ter connosco

Remorsos e saudades

E sentimentos falsos.

É a presença deles,

Deuses que o destroná-los

Tornou espirituais,

De matéria vencida,

Longínqua e inactiva.


Vêm, inúteis forças,

Solicitar em nós

As dores e os cansaços,

Que nos tiram da mão,

Como a um bêbedo mole,

A taça da alegria.


Vêm fazer-nos crer,

Despeitadas ruínas

De primitivas forças,

Que o mundo é mais extenso

Que o que se vê e palpa,

Para que ofendamos

A Júpiter e a Apolo.


Assim até à beira

Terrena do horizonte

Hiperíon no crepúsculo

Vem chorar pelo carro

Que Apolo lhe roubou.


E o poente tem cores

Da dor dum deus longínquo

E ouve-se soluçar

Para além das esferas...

Assim choram os deuses.

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