DILUENTE

by Álvaro de Campos · 29-8-1929
Published 29/08/1929

A vizinha do número quatorze ria hoje da porta

De onde há um mês saiu o enterro do filho pequeno.

Ria naturalmente com a alma na cara.

Está certo: é a vida.

A dor não dura porque a dor não dura.

Está certo.

Repito: está certo.

Mas o meu coração não está certo.

O meu coração romântico faz enigmas do egoísmo da vida.


Cá está a lição, ó alma da gente!

Se a mãe esquece o filho que saiu dela e morreu,

Quem se vai dar ao trabalho de se lembrar de mim?

Estou só no mundo, como um peão de cair.

Posso morrer como o orvalho seca.

Por uma arte natural de natureza solar,

Posso morrer à vontade da deslembrança,

Posso morrer como ninguém...

Mas isto dói,

Isto é indecente para quem tem coração...

Isto...

Sim, isto fica-me nas goelas como uma sanduíche com lágrimas...

Gloria? Amor? O anseio de uma alma humana?

Apoteose ás avessas...

Dêem-me Agua de Vidago, que eu quero esquecer a Vida!

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