Seguro assento na coluna firme

by Ricardo Reis · 29-1-1921
Published 29/01/1921

Seguro assento na coluna firme

      Dos versos em que fico.

O criador interno movimento

      Por quem fui autor deles

Passa, e eu sobrevivo, já não quem

      Escreveu o que fez.

Chegada a hora, passarei também

      E os versos, que não sentem

Serão a única restança posta

      Nos capitéis do tempo.


A obra imortal excede o autor da obra;

      E é menos dono dela

Quem a fez do que o tempo em que perdura.

      Morremos a obra viva.

Assim os deuses esta nossa regem

      Mortal e imortal vida;

Assim o Fado faz que eles a rejam.

      Mas se assim é, é assim.


Aquele agudo interno movimento,

      Por quem fui autor deles

Primeiro passa, e eu, outro já do que era,

       Póstumo substituo-me.

Chegada a hora, também serei menos

      Que os versos permanentes.

      E papel, ou papiro escrito e morto

      Tem mais vida que a mente.


Na noite a sombra é mais igual à noite

      Que o corpo que alumia.

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