A coisa estranha e muda em todo o corpo,

by Álvaro de Campos · 1926?
Published 01/07/1926

A coisa estranha e muda em todo o corpo,

Que está ali, ebúrnea, no caixão,

O corpo humano que não é corpo humano

Que ali se cala em todo o ambiente;

O cais deserto que ali aguarda o incógnito

O assombro álgido ali entreabrindo

A porta suprema e invisível;

O nexo incompreensível

Entre a energia e a vida,

Ali janela para a noite infinita...

Ele — o cadáver do outro,

Evoca-me do futuro

[Eu próprio dois?], ou nem assim...

E embandeiro em arco a negro as minhas esperanças

Minha fé cambaleia como uma paisagem de bêbedo,

Meus projectos tocam um muro infinito até infinito.

#alienação #alvaro de campos #existencialismo #fernando pessoa #identidade #morte

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