TRAMWAY

by Álvaro de Campos · 8-10-1919
Published 08/10/1919

Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,

Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).


Amanhã elas, postas em verso, serão

Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)

Triunfo meta, início, clarão

      Que talvez não acabe.


E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado

Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,

Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado

      Por quem entra primeiro.


Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,

O resto, o que aqui está sentado, sou eu,

Vestido, visual, regular, sempre em mim,

      Sob o azul do céu.


Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso

Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo

Senso essencial, mas certeiro e conciso

      Da vida e do mundo!


Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,

Sob o céu mais análogo ao que penso comigo

Que este carro vai com os bancos cheios

      Para onde eu sigo.


E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?

Onde é que está aqui o erro que sinto?

A minha razão enternecida aqui perde pé

      E pensando minto,


Mas a que verdade minto, que ponte,

Há entre o que é falso aqui e o que é certo?

Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,

      Se o que está a descoberto


Agora no meu meditar é uma treva e um abismo

Que hei-de fazer da minha consciência dividida?

Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?

      De que lado é que é a vida?

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