I - Quando olho para mim não me percebo.

by Álvaro de Campos · 1915
Published 01/07/1915

Quando olho para mim não me percebo.

Tenho tanto a mania de sentir

Que me extravio às vezes ao sair

Das próprias sensações que eu recebo.


O ar que respiro, este licor que bebo

Pertencem ao meu modo de existir,

E eu nunca sei como hei-de concluir

As sensações que a meu pesar concebo.


Nem nunca, propriamente, reparei

Se na verdade sinto o que sinto. Eu

Serei tal qual pareço em mim? serei


Tal qual me julgo verdadeiramente?

Mesmo ante às sensações sou um pouco ateu,

Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.


Lisboa, (uns seis a sete meses antes do Opiário) Agosto 1913

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