Nas praças vindouras — talvez as mesmas que as nossas —

by Álvaro de Campos · 3-2-1927
Published 03/02/1927

Nas praças vindouras — talvez as mesmas que as nossas —

Que elixires serão apregoados?

Com rótulos diferentes, os mesmos do Egipto dos Faraós;

Com outros processos de os fazer comprar, os que já são nossos.


E as metafísicas perdidas nos cantos dos cafés de toda a parte,

As filosofias solitárias de tanta trapeira de falhado,

As ideias casuais de tanto casual, as intuições de tanto ninguém —

Um dia talvez, em fluido abstracto, e substância implausível,

Formem um deus, e ocupem o mundo.

Mas a mim, hoje, a mim

Não há sossego de pensar nas propriedades das coisas,

Nos destinos que não desvendo,

Na minha própria metafísica, que tenho porque penso e sinto

Não há sossego,

E os grandes montes ao sol têm-no tão nitidamente!


Têm-no? Os montes ao sol não têm coisa nenhuma do espírito.

Não seriam montes, não estariam ao sol, se o tivessem.


O cansaço de pensar, indo até ao fundo de existir,

Faz-me velho desde antes de ontem com um frio até no corpo.


O que é feito dos propósitos perdidos, e dos sonhos impossíveis?

E porque é que há propósitos mortos e sonhos sem razão?

Nos dias de chuva lenta, contínua, monótona, uma,

Custa-me levantar-me da cadeira onde não dei por me ter sentado,

E o universo é absolutamente oco em torno de mim.


O tédio que chega a constituir nossos ossos encharcou-me o ser,

E a memória de qualquer coisa de que me não lembro esfria-me a alma.

Sem dúvida que as ilhas dos mares do sul têm possibilidades para o sonho,

E que os areais dos desertos todos compensam um pouco a imaginação;

Mas no meu coração sem mares nem desertos nem ilhas sinto eu,

Na minha alma vazia estou,

E narro-me prolixamente sem sentido, como se um parvo estivesse com febre.


Fúria fria do destino,

Intersecção de tudo,

Confusão das coisas com as suas causas e os seus efeitos,

Consequência de ter corpo e alma,

E o som da chuva chega até eu ser, e é escuro.

#alvaro de campos #desilusão #existencialismo #falta de sentido #fernando pessoa #tédio

2 likes

Related poems →

More by Álvaro de Campos

Read "Nas praças vindouras — talvez as mesmas que as nossas —" by Álvaro de Campos. One of the best and most popular poems on The Poet's Place. Discover more trending, inspiring, and beautiful poetry by Álvaro de Campos.