VIAGEM

by Álvaro de Campos · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

Sonhar um sonho é perder outro. Tristonho

Fito a ponte pesada e calma...

Cada sonho é um existir de outro sonho

Ó eterna desterrada em ti própria, ó minha alma!


Sinto em meu corpo mais conscientemente

O rodar estremecido do comboio. Pára?...

Com um como que intento intermitente

De (...) mal-roda, estaca. Numa estação, clara


De realidade e gente e movimento.

Olho p'ra fora... Cesso. Estagno em mim.

Resfolgar da máquina... Carícia de vento

Pela janela que se abre... Estou desatento...

Parar... seguir... parar... Isto é sem fim


Ó o horror da chegada! Ó horror. Ó nunca

chegares, ó ferro em trémulo seguir!

À margem da viagem prossegue... Trunca

A realidade, passa ao lado do ir

E pelo lado interior da Hora

Foge, usa a eternidade, vive...

Sobrevive ao momento (...) vai!

Suavemente... suavemente, mais suavemente e demora

(...) entra na gare... Range-se... estaca... É agora!


Tudo o que fui de sonho, o eu-outro que tive

Resvala-me pela alma... Negro declive

Resvala, some-se, para sempre se esvai

E da minha consciência um Eu que não obtive

Dentro em mim de mim cai.

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