Carnaval — fragmento "não tenho compartimentos estanques"

by Álvaro de Campos · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

CARNAVAL


3


(...) não tenho compartimentos estanques

Para os meus sentimentos e emoções...


Vidas, realmente se misturam

O que era cérebro acaba sentimento

Minha unidade morre ao relento

(...)


Quando quero pensar, sinto, não sei

Se me sinto quem sou e queria.

Psique de fora da psicologia,

Vivo fora da (...) e da lei


Amorfo anexo ao mundo exterior

Reproduzindo tudo o que nele há

Sem que em meu ser qualquer ser meu me vá

Compensar pessoalmente a minha dor.


Não: sempre as dores doutra gente que é eu

(Sempre alegrias de várias pessoas)

[...]

Sempre de um centro diferente e meu


Carnaval de (...)

Bebendo p'ra se sentir alegres e outros

Outros bebendo como eles (...) se sentem

Tendo de ser alegres (...)


Dêem-me um sentir que cansa e é bom e cessa

Prendam-me para que eu não faça mais versos

Façam [ad finem?] com que o sentir cesse

Proíbam-me pensar com a cabeça.


Dói-me a vida em todos os meus poros

Estala-me na cabeça o coração,

(...)

Para que escrevo? É uma pura perda.

(...)


Depois. [...]

Se escrevo o que sinto [...]. Bom. Merda.


Pronto. Acabou-se. Quebro a pena e a tinta

Entorno-a aqui só para a entornar...

Não haver vida que se possa DAR!

Não haver alma com que não se sinta!


Não haver como essa alma consertar-me

Com cordéis ou arames que se aguentem

Com ferros e madeiras que não mentem

E me dêem unidade no aguentar-me!


Não haver (...)

Não haver, não [...]

Não haver. Não Haver!

#alienação #alvaro de campos #angústia #crise de identidade #desespero #existencialismo #fernando pessoa

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