Não sem lei, mas segundo leis diversas

by Ricardo Reis · 17-11-1918
Published 17/11/1918

Não sem lei, mas segundo leis diversas

Entre os homens reparte o fado e os deuses

      Sem justiça ou injustiça

Prazeres, dores, gozos e perigos.


Bem ou mal, não terás o que mereces.

Querem os deuses a isto obrigar

      Porque o Fado não tem

Leis nossas com que reja a sua lei.


Quem é rei hoje, amanhã escravo cruza

Com o escravo de ontem que é depois rei.

      Sem razão um caiu,

Sem causa nele o outro ascenderá.


Não em nós, mas dos deuses no capricho

E nas sombras p'ra além do seu domínio

      Está o que somos, e temos,

A vida e a morte do que somos nós.


Se te apraz mereceres, que te apraza

Por mereceres, não porque te o Fado

      Dê o prémio ou a paga

De com constância haveres merecido.


Dúbia é a vida, inconstante o que a governa.

O que esperamos nem sempre acontece

      Nem nos falece sempre,

Nem há com que a alma uma ou outra cousa espere.


Torna teu coração digno dos deuses

E deixa a vida incerta ser quem seja.

      O que te acontecer

Aceita. Os deuses nunca se rebelam.


Nas mãos inevitáveis do destino

A roda rápida soterra hoje

      Quem ontem viu o céu

Do transitório auge do seu giro.

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