Passagem das Horas — fragmento "Nada me prende, a nada me ligo, a nada pertenço."

by Álvaro de Campos · 10-4-1923
Published 10/04/1923

PASSAGEM DAS HORAS


Nada me prende, a nada me ligo, a nada pertenço.

Todas as sensações me tomam e nenhuma fica.

Sou mais variado que uma multidão de acaso,

Sou mais diverso que o universo espontâneo,

Todas as épocas me pertencem um momento,

Todas as almas um momento tiveram seu lugar em mim.

Fluido de intuições, rio de supor-mas,

Sempre ondas sucessivas,

Sempre o mar — agora desconhecendo-se

Sempre separando-se de mim, indefinidamente.


Ó cais onde eu embarque definitivamente para a Verdade,

Ó barco com capitão e marinheiros, visível no símbolo,

Ó águas plácidas, como as de um rio que há, no crepúsculo

Em que me sonho possível —

Onde estais que seja um lugar, quando sois que seja uma hora?

Quero partir e encontrar-me,

Quero voltar a saber de onde,

Como quem volta ao lar, como quem torna a ser social,

Como quem ainda é amado na aldeia antiga,

Como quem roça pela infância morta em cada pedra de muro,

E vê abertos em frente os eternos campos de outrora

E a saudade como uma canção de mãe a embalar flutua

Na tragédia de já ser passado,

Ó terras ao sul, conterrâneas, locais e vizinhas!

Ó linha dos horizontes, parada nos meus olhos,

Que tumulto de vento próximo me é ainda distante,

E como oscilas no que eu vejo, de aqui!


Merda p'rá vida!

Ter profissão pesa aos ombros como um fardo pago,

Ter deveres estagna,

Ter moral apaga,

Ter a revolta contra deveres e a revolta contra a moral,

Vive na rua sem siso.

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