Não a ti, Cristo, odeio ou menosprezo

by Ricardo Reis · 9-10-1916
Published 09/10/1916

Não a ti, Cristo, odeio ou menos prezo

Que aos outros deuses que te precederam

      Na memória dos homens.

Nem mais nem menos és, mas outro deus.


No Panteão faltavas. Pois que vieste

No Panteão o teu lugar ocupa,

      Mas cuida não procures

Usurpar o que aos outros é devido.


Teu vulto triste e comovido sobre

A estéril dor da humanidade antiga

      Sim, nova pulcritude

Trouxe ao antigo Panteão incerto


Mas que os teus crentes te não ergam sobre

Outros, antigos deuses que dataram

      Por filhos de Saturno

De mais perto da origem igual das coisas,


E melhores memórias recolheram

Do primitivo caos e da Noite

      Onde os deuses não são

      Mais que as estrelas súbditas do Fado.


Tu não és mais que um deus a mais no eterno

Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.

      Panteão que preside

      À nossa vida incerta.


Nem maior nem menor que os novos deuses,

Tua sombria forma dolorida

      Trouxe algo que faltava

      Ao número dos divos.


Por isso reina a par de outros no Olimpo,

Ou pela triste terra se quiseres

      Vai enxugar o pranto

      Dos humanos que sofrem.


Não venham, porém, estultos teus cultores

Em teu nome vedar o eterno culto

      Das presenças maiores

      Ou parceiras da tua.


A esses, sim, do âmago eu odeio

Do crente peito, e a esses eu não sigo,

      Supersticiosos leigos

      Na ciência dos deuses.


Ah, aumentai, não combatendo nunca.

Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando

      Cada vez maior força

      Plo número maior.


Basta os males que o Fado as Parcas fez

Por seu intuito natural fazerem.

      Nós homens nos façamos

      Unidos pelos deuses.

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