XX - Cuidas, ínvio, que cumpres, apertando

by Ricardo Reis · 11-7-1914
Published 11/07/1914

Cuidas, ínvio, que cumpres, apertando

Teus infecundos, trabalhosos dias

      Em feixes de hirta lenha,

      Sem ilusão a vida.

A tua lenha é só peso que levas

Para onde não tens fogo que te aqueça,

      Nem sofrem peso aos ombros

      As sombras que seremos.

Para folgar não folgas; e, se legas,

Antes legues o exemplo, que riquezas,

      De como a vida basta

      Curta, nem também dura.


Pouco usamos do pouco que mal temos.

A obra cansa, o ouro não é nosso.

      De nós a mesma fama

      Ri-se, que a não veremos

Quando, acabados pelas Parcas, formos,

Vultos solenes, de repente antigos,

      E cada vez mais sombras,

      Ao encontro fatal —

O barco escuro no soturno rio,

E os novos abraços da frieza estígia

      E o regaço insaciável

      Da pátria de Plutão.

#alienação #existencialismo #fernando pessoa #futilidade #morte #ricardo reis #trabalho

2 likes

Related poems →

More by Ricardo Reis

Read "XX - Cuidas, ínvio, que cumpres, apertando" by Ricardo Reis. One of the best and most popular poems on The Poet's Place. Discover more trending, inspiring, and beautiful poetry by Ricardo Reis.