Ode Marcial — "Ai de ti, ai de ti, ai de nós!"

by Álvaro de Campos · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

ODE MARCIAL


Ai de ti, ai de ti, ai de nós!

Por detrás destas leis inexplicáveis, foges da vida

Haverá alguma ternura divina que compense isto tudo?


Ainda tens o berço dele a um canto, em casa...

Ainda tens guardados os fatinhos dele, de pequeno...

Ainda tens numa gaveta alguns brinquedos partidos...

Agora, sim, agora, vai olhá-los e chora sobre eles...

Não sabes onde é a sepultura do teu filho...

Foi o n.º qualquer coisa do regimento um tal,

Morreu lá para a [...] em qualquer parte... morreu...

O filho que tu tiveste ao peito, que amamentaste e que criaste...

Que remexera no teu ventre...

O rapazote feito que dizia graças e tu rias tanto...

Agora ele é podridão... Bastou em linha alemã

Um bocado de chumbo, do tamanho dum prego, e a tua vida é triste...

Receberas um prémio do [Estado?]. Disse que o teu filho foi um herói...

(Ninguém sabe, de resto, se ele foi herói ou não)

É um enigma p'ra a história...

"Morreram 20, cem homens na batalha de tal..." Ele era um deles...

E o teu coração de mãe sangrou tanto por esse herói de que a história não disse nada...

O acontecimento mais importante da guerra foi aquele para ti...

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