Oh o maior horror de terem cessado os clarins

by Álvaro de Campos · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

Oh o maior horror de terem cessado os clarins

Que sons indecisos nos traz o que substitui o vento

Nesta profunda palidez [...] dos que mataram?

Quem é que vem? O que nos vai dar

Que criança a soluçar em calma noite intranquila,

Meu irmão? A irmã de quem? Ó anos de infância

Em que eu olhava da janela os soldados e via os uniformes

E a sangrenta e carnal realidade das coisas não existia para mim!...


Choque de cavaleiros onde?

Artilharia, onde, onde, onde?

Ó dor da [indecisão?] com agitações inexplicáveis à superfície de águas estagnadas...

Ó murmúrio incompreensível da morte como que vento nas folhagens...

Ó pavor certo de uma realidade desenhada pelos espelhos indecisos...


(Lágrimas nas tuas mãos

E plácido o teu olhar...

E tu, amor, és uma realidade também...

Ah, não ser tudo senão um quadro, um quadro qualquer...

E quem sabe se tudo não será um quadro e a dor e a alegria

E a incerteza e o terror

Coisas, meras coisas, [...]

Lágrimas nas tuas mãos, no terraço sobre o lago azul da montanha

E lento o crepúsculo sobre os cumes altos das nossas duas almas

E uma vontade de chorar a apertar-nos aos dois ao seu peito...)


A guerra. a guerra, a guerra realmente.

Excessivamente aqui, horror, a guerra real...

Com a sua realidade de gente que vive realmente,

Com a sua estratégia realmente aplicada a exércitos reais compostos de gente real

E as suas consequências, não coisas contadas em livros

Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu, na verdade,

E o sol também real sobre a terra também real

Reais em acto e a mesma merda no meio disto tudo!


Verdade do perigo, dos mortos, dos doentes e das violações,

E os sons florescem nos gritos misteriosamente...

A gaiola do canário à tua janela, Maria,

E o sussurro suave da água que gorgoleja no tanque...


O corpo... E os outros corpos não muito diferentes deste,

A morte... E o contrário disto tudo é a vida...

Dói-me a alma e não compreendo...

Custa-me a acreditar no que existe...

Pálido e perturbado. não me mexo e sofro.

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