Hé-lá que eu vou chamar

by Álvaro de Campos · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

Hé-lá que eu vou chamar

Ao privilégio ruidoso e ensurdecedor de saudar-te

Todo o formilhamento humano do Universo,

Todos os modos de todas as emoções,

Todos os feitios de todos pensamentos,

Todas as rodas, todos os volantes, todos os êmbolos da alma.

Heia que eu grito

E num cortejo de Mim até ti estardalhaçam

Com uma algaravia metafísica e real,

Com um chinfrim de coisas passado por dentro sem nexo,

(...)


Ave, salve, viva, ó grande bastardo de Apolo,

Amante impotente e fogoso das nove musas e das graças,

Funicular do Olimpo até nós e de nós ao Olimpo,

Fúria do moderno concretado em mim,

Espasmo translúcido de ser,

Flor de agirem os outros,

Festa porque há a Vida,

Loucura porque não há vida bastante em um p'ra ser todos

Porque ser é ser bastardo e só Deus nos servia.


Ah, tu que cantaste tudo, deixaste tudo por cantar.

Quem pode vibrar mais que o seu corpo em seu corpo,

Quem tem mais sensações que as sensações por ter?

Quem é bastante quando nada basta?

Quem fica completo quando um só [vinco?] de erva

Fica com a raiz fora do seu coração?

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