WALT WHITMAN

by Álvaro de Campos · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

Onde não sou o primeiro, prefiro não ser nada, não estar lá,

Onde não posso agir o primeiro, prefiro só ver agir os outros.

Onde não posso mandar, antes quero nem obedecer.


Excessivo na ânsia de tudo, tão excessivo que nem falo,

E não falo, porque não tento.

«Ou Tudo ou Nada» tem um sentido pessoal para mim.

Mas ser universal — não o posso, porque sou particular.

Não posso ser todos, porque sou Um, um só, só eu Não posso ser o primeiro em qualquer coisa, porque não há o primeiro.

Prefiro por isso o nada de ser co-primeiro em ser nada.


Quando é que parte o último comboio, Walt?

Quero deixar esta cidade, a Terra,

Quero emergir de vez deste país, Eu,

Deixar o mundo com o que se comprova falido,

Como um caixeiro viajante que vende navios a habitantes do interior.


O fim a motores partidos!

Que foi todo o meu ser? Uma grande ânsia inútil —

Estéril realização com um destino impossível —

Máquina de louco para realizar o motu continuo,

Teorema de absurdo para a quadratura do círculo,

Travessia a nado do Atlântico, falando na margem de cá

Antes da entrada na água, só com eles e o cálculo,

Atirar de pedras à lua

Ânsia absurda do encontro dos paralelos Deus-vida.


Megalomania dos nervos,

Ânsia de elasticidade do corpo duro,

Raiva de meu concreto ser por não ser o auge-eixo

O carro da sensualidade de entusiasmo abstracto

O vácuo dinâmico do mundo!


Vamo-nos embora de Ser.

Larguemos de vez, definitivamente, a aldeia-Vida

O arrabalde-Mundo de Deus

E entremos na cidade à aventura, ao rasgo

Ao auge, loucamente ao Ir...

Larguemos de vez.


Quando parte, Walt, o último comboio p'ra aí?

Que Deus fui para as minhas saudades serem estas ânsias?

Talvez partindo regresse. Talvez acabando, chegue,

Quem sabe? Qualquer hora é a hora. Partamos,

Vamos! A estada tarda. Partir é ter ido.


Partamos para onde se fique.

Ó estrada para não-haver-estradas!

Término no Não-Parar!

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