É inútil prolongar a conversa de todo este silêncio.

by Álvaro de Campos · 22-11-1931
Published 22/11/1931

É inútil prolongar a conversa de todo este silêncio.

Jazes sentado, fumando, no canto do sofá grande —

Jazo sentado, fumando, no sofá de cadeira funda,

Entre nós não houve, vai para uma hora,

Senão os olhares de uma só vontade de dizer.

Renovávamos, apenas, os cigarros — o novo no aceso do velho

E continuávamos a conversa silenciosa,

Interrompida apenas pelo desejo olhado de falar...


Sim, é inútil,

Mas tudo, até a vida dos campos é igualmente inútil

Há coisas que são difíceis de dizer...

Este problema, por exemplo.

De qual de nós é que ela gosta? Como é que podemos chegar a discutir isso?

Nem falar nela, não é verdade?

E sobretudo não ser o primeiro a pensar em falar nela!

A falar nela ao impassível outro e amigo...

Caiu a cinza do teu cigarro no teu casaco preto —

Ia advertir-te, mas para isso era preciso falar...


Entreolhámo-nos de novo, como transeuntes cruzados.

E o pecado mútuo que não cometemos

Assomou ao mesmo tempo ao fundo dos dois olhares.

De repente espreguiças-te, semi-ergues-te — Escusas de falar...

"Vou-me deitar!" dizes, porque o vais dizer.

E tudo isto, tão psicológico, tão involuntário,

Por causa de uma empregada de escritório agradável e solene.

Ah, vamo-nos deitar!

Se fizer versos a respeito disto, já sabes, é desprezo!

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