São poucos os momentos de prazer na vida...

by Álvaro de Campos · 5-2-1932
Published 05/02/1932

São poucos os momentos de prazer na vida...

É gozá-la... Sim, já o ouvi dizer muitas vezes

Eu mesmo já o disse. (Repetir é viver.)

É gozá-la não é verdade?


Gozêmo-la, loura falsa, gozêmo-la, casuais e incógnitos,

Tu, com teus gestos de distinção cinematográfica

Com teus olhares para o lado a nada,

Cumprindo a tua função de animal emaranhado;

Eu no plano inclinado da consciência para a indiferença,

Amemo-nos aqui. Tempo é só um dia.

Tenhamos o [romantismo?] dele!

Por trás de mim vigio, involuntariamente.

Sou qualquer nas palavras que te digo, e são suaves — e as que esperas.

Do lado de cá dos meus Alpes, e que Alpes! somos do corpo.

Nada quebra a passagem prometida de uma ligação futura,

E vai tudo elegantemente, como em Paris, Londres, Berlim.

"Percebe-se", dizes, «que o senhor viveu muito no estrangeiro."

E eu que sinto vaidade em ouvi-lo!

Só tenho medo que me vás falar da tua vida...

Cabaret de Lisboa? Visto que o é, seja.

Lembro-me subitamente, visualmente, do anúncio no jornal...

"Rendez-vous da sociedade elegante",

Isto.

Mas nada destas reflexões temerárias e futuras

Interrompe aquela conversa involuntária em que te sou qualquer.

Falo medias e imitações

E cada vez, vejo e sinto, gostas mais de mim a valer que (...) hoje;

É nesta altura que, debruçando-me de repente sobre a mesa

Te segredo em segredo o que exactamente convinha.

Ris, toda olhar e em parte boca, efusiva e próxima,

E eu gosto verdadeiramente de ti.

Soa em nós o gesto sexual de nos irmos embora.

Rodo a cabeça para o pagamento...

Alegre, alacre, sentindo-te, falas...

Sorrio.

Por trás do sorriso, não sou eu.

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