Cedo demais vem sempre, Cloé, o inverno.

by Ricardo Reis · 7-7-1919
Published 07/07/1919

Cedo de mais vem sempre, Cloé, o inverno.

É sempre prematuro, inda que o espere

      Nosso hábito, o esfriar

      Do desejo que houve.


Não entardece que não morra o dia.

Não nasce amor ou fé em nós que não

      Morra com isso ao menos

      O não amar ou crer.


Todo o gesto que o nosso corpo faz

Com o repouso anterior contrasta.

      Nesta má circunstância

      Do tempo eternos somos.


Só sabe da arte com que viva a vida

Aquele que, de tão contínua usá-la,

      Furte ao tempo a vitória

      Das mudanças depressa,


E entardecendo como um dia trópico,

Até ao fim inevitável guie

      Uma igual vida, súbito

      Precipite no abismo.

#existencialismo #fernando pessoa #mortaldade #ricardo reis #tempo

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