Talvez quem vê bem não sirva para sentir

by Alberto Caeiro · 8-11-1929
Published 08/11/1929

Talvez quem vê bem não sirva para sentir

E não agrada por estar muito antes das maneiras.

É preciso ter modos para todas as coisas,

E cada coisa tem o seu modo, e o amor também.

Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas

Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.

Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,

Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.

Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,

E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.

Como se tivesse estado de cabeça baixa,

Penso isto, e fico de cabeça alta

E o dourado sol seca a vontade de lágrimas que não posso deixar de ter.

Como o campo é vasto e o amor interior...!

Olho, e esqueço, como seca onde foi água e nas árvores desfolha.



Eu não sei falar porque estou a sentir.

Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa,

E a minha voz fala dela como se ela é que falasse.

Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,

E a boca quando fala diz coisas que não só as palavras.

Sorri, e os dentes são limpos como pedras do rio.

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