Deixemos, Lídia, a ciência que não põe

by Ricardo Reis · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

Deixemos, Lídia, a ciência que não põe

Mais flores do que Flora pelos campos,

      Nem dá de Apolo ao carro

      Outro curso que Apolo.


Contemplação estéril e longínqua

Das coisas próximas, deixemos que ela

      Olhe até não ver nada

      Com seus cansados olhos.


Vê como Ceres e a mesma sempre

E como os louros campos entumece

      E os cala pràs avenas

      Dos agrados de Pã.


Vê como com seu jeito sempre antigo

Aprendido no orige azul dos deuses,

      As ninfas não sossegam

      Na sua dança eterna.


E como as hemadríades constantes

Murmuram pelos rumos das florestas

      E atrasam o deus Pã

      Na atenção à sua flauta.


Não de outro modo mais divino ou menos

Deve aprazer-nos conduzir a vida,

      Quer sob o ouro de Apolo

      Ou a prata de Diana.


Quer troe Júpiter nos céus toldados,

Quer apedreje com as suas ondas

      Neptuno as planas praias

      E os erguidos rochedos.


Do mesmo modo a vida é sempre a mesma.

Nós não vemos as Parcas acabarem-nos.

      Por isso as esqueçamos

      Como se não houvessem.


Colhendo flores ou ouvindo as fontes

A vida passa como se temêssemos.

      Não nos vale pensarmos

      No futuro sabido


Que aos nossos olhos tirará Apolo

E nos porá longe de Ceres e onde

      Nenhum Pã cace à flauta

      Nenhuma branca ninfa.


Só as horas serenas reservando

Por nossas, companheiros na malícia

      De ir imitando os deuses

      Até sentir-lhe a calma.


Venha depois com as suas cãs caídas

A velhice, que os deuses concederam

Que esta hora por ser sua

Não sofra de Saturno

Mas seja o templo onde sejamos deuses

Inda que apenas, Lídia, pra nós próprios

Nem precisam de crentes

Os que de si o foram.

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