XIV - De novo traz as aparentes novas

by Ricardo Reis · 22-10-1923
Published 22/10/1923

De novo traz as aparentes novas

Flores o Verão novo, e novamente

      Verdesce a cor antiga

      Das folhas redivivas.

Não mais, não mais dele o infecundo abismo,

Que mudo sorve o que mal somos, torna

      À clara luz superna

      A presença vivida.

Não mais; e a prole a que, pensando, dera

A vida da razão, em vão o chama,

      Que as nove chaves fecham

      Da Estige irreversível.

O que foi como um deus entre os que cantam,

O que do Olimpo as vozes, que chamavam,

      Escutando ouviu, e, ouvindo,

      Entendeu, hoje é nada.

Tecei embora as, que teceis, grinaldas.

Quem coroais, não coroando a ele?

      Votivas as deponde,

      Fúnebres sem ter culto.

Fique, porém, livre da leiva e do Orco,

A fama; e tu, que Ulisses erigira,

      Tu, em teus sete montes,

      Orgulha-te materna,

Igual, desde ele, às sete que contendem

Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,

      Ou heptápila Tebas,

      Ogígia mãe de Píndaro.

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