Tirem-me os deuses

by Ricardo Reis · 6-6-1915
Published 06/06/1915

Tirem-me os deuses

Em seu arbítrio

Superior e urdido às escondidas

O Amor, gloria e riqueza.


Tirem, mas deixem-me,

Deixem-me apenas

A consciência lúcida e solene

Das coisas e dos seres.


Pouco me importa

Amor ou glória.

A riqueza é um metal, a gloria é um eco

E o amor uma sombra.


Mas a concisa

Atenção dada

Às formas e as maneiras dos objectos

Tem abrigo seguro.


Seus fundamentos

São todo o mundo,

Seu amor é o plácido Universo.

Sua riqueza a vida.


A sua glória

É a suprema

Certeza da solene e clara posse

Das formas dos objectos.


O resto passa,

E teme a morte.

Só nada teme ou sofre a visão clara

E inútil do Universo.


Essa a si basta,

Nada deseja

Salvo o orgulho de ver sempre claro

Até deixar de ver.

#busca de conhecimento #existencialismo #fernando pessoa #ricardo reis

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