Passagem das Horas — fragmento "Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro."

by Álvaro de Campos · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

PASSAGEM DAS HORAS


Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.

As mulheres que chegam às portas depressa

Viram apenas que eu passei.

Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,

Inatingível a metais e encrustamentos.


Ó tarde, que reminiscências!

Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,

Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.

Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.

Mas se rio é só porque fui outro eu

A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.


Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.

Os mortos — eles nunca me deixam!

Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.

E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica

Toca-me levemente uma saudade no braço

E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga

A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.


      Ah, sê materna!

      Ah, sê melíflua e taciturna

      Ó noite aonde me esqueço de mim

      Lembrando...

#alienação #alvaro de campos #fernando pessoa #memória da infância #mortalidade #nostalgia #passagem do tempo

4 likes

Related poems →

More by Álvaro de Campos

Read "Passagem das Horas — fragmento "Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro."" by Álvaro de Campos. One of the best and most popular poems on The Poet's Place. Discover more trending, inspiring, and beautiful poetry by Álvaro de Campos.