(Depois do amor — na treva)

by Fernando Pessoa · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

Eis-me enfim só, oh desejado horror

Eis-me enfim ante ti, oh Universo!

Eis-me aqui, lama e (...) mistério,

Excluído de ti, o eterno expulso

Que não pedia a vida. Eis-me aqui.


Pudesse eu pôr no seu desmedimento

O ódio (...) e afrontar-vos

Com a expressão desse ódio, oh silêncios,

Oh noites ao pensar! eu morreria

De haver interpretado em tanto horror

Um mor horror que interpretar não pode

O que há-de ser palavra ou pensamento.

Eis-me aqui, oh abismo explicado!

Eis-me aqui o maior dos seres todos,

Quebrando aos pés do pensamento forte

A cruz de Cristo e as fórmulas mortais

[...]

Eis-me aqui!

O que há para mim senão vacuidade

No mundo (...), o que me destinastes?

O vazio? O silêncio? A escuridão?

Desses-me o instinto deles, não a plena

Torturação da luz.

#dúvida religiosa #existencialismo #fernando pessoa #horror #niilismo #solidão #vazio

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