XXIV - O que nós vemos das coisas são as coisas.

by Alberto Caeiro · 13-3-1914
Published 13/03/1914

O que nós vemos das coisas são as coisas.

Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?

Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos

Se ver e ouvir são ver e ouvir?


O essencial é saber ver,

Saber ver sem estar a pensar,

Saber ver quando se vê,

E nem pensar quando se vê,

Nem ver quando se pensa.


Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),

Isso exige um estudo profundo,

Uma aprendizagem de desaprender

E uma sequestração na liberdade daquele convento

De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas

E as flores as penitentes convictas de um só dia,

Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas

Nem as flores senão flores,

Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

#alberto caeiro #conhecimento #fernando pessoa #filosofia #ilusão #percepção

2 likes

Related poems →

More by Alberto Caeiro

Read "XXIV - O que nós vemos das coisas são as coisas." by Alberto Caeiro. One of the best and most popular poems on The Poet's Place. Discover more trending, inspiring, and beautiful poetry by Alberto Caeiro.