Primeiro prenúncio de trovoada de depois de amanhã.

by Alberto Caeiro · 10-7-1930
Published 10/07/1930

Primeiro prenúncio de trovoada de depois de amanhã.

As primeiras nuvens, brancas, pairam baixas no céu mortiço

>Da trovoada de depois de amanhã?

Tenho a certeza, mas a certeza é mentira.

Ter certeza é não estar vendo.

Depois de amanhã não há.

O que há é isto:

Um céu azul, um pouco baço, umas nuvens brancas no horizonte,

Com um retoque de sujo em baixo como se viesse negro depois,

Isto é o que hoje é,

E, como hoje por enquanto é tudo, isto é tudo.

Quem sabe se eu estarei morto depois de amanhã?

Se eu estiver morto depois de amanhã, a trovoada de depois de amanhã

Será outra trovoada do que seria se eu não tivesse morrido.

Bem sei que a trovoada não cai da minha vista,

Mas se eu não estiver no mundo,

O mundo será diferente —

Haverá eu a menos —

E a trovoada cairá num mundo diferente e não será a mesma trovoada.

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