Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,

by Alberto Caeiro · 12-4-1919
Published 12/04/1919

Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,

Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.

Acho-te graça por nunca te ter visto antes,

E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,

Nem aqui vinhas.

Brinca na poeira, brinca!

Aprecio a tua presença só com os olhos.

Vale mais a pena ver uma coisa sempre pela primeira vez que conhecê-la,

Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,

E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.


O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.

Brinca! Pegando numa pedra que te cabe na mão,

Sabes que te cabe na mão.

Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?

Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.

#alberto caeiro #desconhecido #fernando pessoa #infância #inocência #reflexão existencial

1 like

Related poems →

More by Alberto Caeiro

Read "Criança desconhecida e suja brincando à minha porta," by Alberto Caeiro. One of the best and most popular poems on The Poet's Place. Discover more trending, inspiring, and beautiful poetry by Alberto Caeiro.