Do eterno erro na eterna viagem,

by Fernando Pessoa · 20-11-33 (uncertain date)
Published 01/07/1880

Do eterno erro na eterna viagem,

O mais que saibas na alma que ousa,

É sempre nome, sempre linguagem

O véu e a capa de uma outra cousa.


Nem que conheças de frente o Deus,

Nem que o eterno te dê a mão,

Vês a verdade, rompes os véus,

Tens mais caminho que a solidão.


Todos os astros, inda os que brilham

No céu sem fundo do mundo interno,

São só caminhos que falsos trilham

Eternos passos do erro eterno.


Volta a meu seio, que não conhece

Enigma ou deuses porque os não vê,

Volta a meus braços, neles esquece

Isso que tudo só finge que é.


Meus ramos tecem doceis de sono,

Meus frutos ornam o arvoredo;

Vem a meus braços em abandono

Todos os Deuses fazem só medo.


Não há verdade que consigamos,

Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...

Doceis de sono tecem meus ramos.

Dorme sob eles como qualquer.

#busca de sentido #dúvida existencial #fernando pessoa #ilusão #solidão

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