Epílogo?

by Fernando Pessoa · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

(Fausto (numa cama) acordando, abre as olhos)


Vivo! Pois vivo ainda! Torno a ver-te,

Pálida luz, silente luz da tarde,

Que ora me enleias dum calado horror!

Onde estou? Onde estive? Ferve em mim,

Numa quietação indefinida,

Um eco de tumultos e de sombras

E uma coorte como de fantasmas

Oscilantes. E luzes, cantos, gritos,

Desejos, lágrimas, chamas e corpos,

Num referver (...) e misturado

Numa esvaída confusão nocturna,

Como tendo piedade de deixar-me

Sinto passar em mim, como visões.

Nem com esforço recordar-me posso

Se são fantasmas ou vagas lembranças;

Não me lembro de vida alguma minha

E o necessário esforço desejado

P'ra recordar-me não o posso ter.


A forte central luz do meu pensar

Qu'iluminando forte e unamente

Fazia o meu ser um, já se apagou.

Restam-me sombras e dispersas luzes

Tremeluzentes vãs cintilações

Que me cansam de vagas e ilusórias.

Para quê sofrer mais? Não haverei

Ainda o sono que me pede a mente

Atormentada de febrilidades

E erros esvaídos de sentir?

Já me cansa e me doi sentir-me a mim,

E perceber que existo e que há uma vida

Comigo, vaga e desprendidamente,

Qual vinho numa taça. E já não tenho

Força para entornar a taça e enfim

Acabar. Nem desejo nem espero

Nem temo, n'apatia do meu ser.

Para que pois viver? Quero a morte,

E ao sentir os seus passos

Alegremente e apagadamente,

Me voltarei lento para o seu lado

Deixando enfim cair sobre o meu braço

Minha cabeça, olhos cerrados, quentes

De choro vago já meio esquecido.


Mas onde estou? Que casa é esta? Quarto

Rude, simples — não sei, não tenho força

Para observar — quarto cheio de luz

Escura e demorada que na tarde

Outr'ora eu... Mas qu'importa? A luz é triste,

Eu conheço-a.

#apatia #crise de identidade #existencialismo #fernando pessoa

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