Há um frio e um vácuo no ar.

by Fernando Pessoa · 23-2-1931
Published 23/02/1931

Há um frio e um vácuo no ar.

Está sobre tudo a pairar,

Cinzento-preto, o luar.


Luar triste de antemanhã

De outro dia e sua vã

Esperança e inútil afã.


É como a morte de alguém

Que era tudo que a alma tem

E que não era ninguém.


Absurdo erro disperso

No espaço, água onde é imerso

O cadáver do universo.


É como o meu coração

Frio da vaga opressão

Da antemanhã da visão.

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