Não sei ser triste a valer

by Fernando Pessoa · 3-4-1931
Published 03/04/1931

Não sei ser triste a valer

Nem ser alegre deveras.

Acreditem: não sei ser.

Serão as almas sinceras

Assim também, sem saber?


Ah, ante a ficção da alma

E a mentira da emoção,

Com que prazer me dá calma

Ver uma flor sem razão

Florir sem ter coração!


Mas enfim não há diferença.

Se a flor flore sem querer,

Sem querer a gente pensa.

O que nela é florescer

Em nós é ter consciência.


Depois, a nós como a ela,

Quando o Fado a faz passar,

Surgem as patas dos deuses

E a ambos nos vêm calcar.


Está bem, enquanto não vêm

Vamos florir ou pensar.

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