Dói-me quem sou. E em meio da emoção

by Fernando Pessoa · 26-7-1930
Published 26/07/1930

Dói-me quem sou. E em meio da emoção

Ergue a fronte de torre um pensamento.

É como se na imensa solidão

De uma alma a sós consigo, o coração

Tivesse cérebro e conhecimento.


Numa amargura artificial consisto,

Fiel a qualquer ideia que não sei,

Como um fingido cortesão me visto

Dos trajes majestosos em que existo

Para a presença artificial do rei.


Sim, tudo é sonhar quanto sou e quero.

Tudo das mãos caídas se deixou.

Braços dispersos, desolado espero.

Mendigo pelo fim do desespero,

Que quis pedir esmola e não ousou.

#alienação #angústia existencial #desespero #fernando pessoa #identidade #solidão

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