Aqui está-se sossegado,

by Fernando Pessoa · 29-3-1929
Published 29/03/1929

Aqui está-se sossegado,

Longe do mundo e da vida,

Cheio de não ter passado,

Até o futuro se olvida.

Aqui está-se sossegado.


Tinha os gestos inocentes,

Seus olhos riam no fundo.

Mas invisíveis serpentes

Faziam-a ser do mundo.

Tinha os gestos inocentes.


Aqui tudo é paz e mar.

Que longe a vista se perde

Na solidão a tornar

Em sombra, o azul que é verde!


Sim, poderia ter sido...

Mas vontade nem razão

O mundo têm conduzido

A prazer ou conclusão.

Sim, poderia ter sido...


Agora não esqueço e sonho.

Fecho os olhos, oiço o mar

E de ouvi-lo bem, suponho

Que vejo azul a esverdear.

Agora não esqueço e sonho.


Não foi propósito, não.

Os seus gestos inocentes

Tocavam no coração

Como invisíveis serpentes.

Não foi propósito, não.


Durmo, desperto e sozinho.

Que tem sido a minha vida?

Velas de inútil moinho —

Um movimento sem lida...

Durmo, desperto e sozinho.


Nada explica nem consola.

Tudo está certo depois.

Mas a dor que nos desola,

A mágoa de um não ser dois —

Nada explica nem consola.

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