Dormir! Não ter desejos nem esperanças

by Fernando Pessoa · 21-8-1924
Published 21/08/1924

Dormir! Não ter desejos nem esperanças

Flutua branca a única nuvem lenta

E na azul quiescência sonolenta

A deusa do não-ser tece ambas as tranças.


Maligno sopro de árdua quietude

Perene a fronte e os olhos aquecidos,

E uma floresta-sonho de ruídos

Ensombra os olhos mortos de virtude.


Ah, não ser nada conscientemente!

Prazer ou dor? Torpor o traz e alonga,

E a sombra conivente se prolonga

No chão interior, que à vida mente.


Desconheço-me. Embrenha-me, futuro,

Nas veredas sombrias do que sonho.

E no ócio em que diverso me suponho,

Vejo-me errante, demorado e obscuro.


Minha vida fecha-se como um leque.

Meu pensamento seca como um vago

Ribeiro no Verão. Regresso, e trago

Nas mãos flores que a vida prontas seque.


Incompreendida vontade absorta

Em nada querer... Prolixo afastamento

Do escrúpulo e da vida do momento...

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