GLOSAS

by Fernando Pessoa · 14-8-1925
Published 14/08/1925

Toda a obra é vã, e vã a obra toda.

O vento vão, que as folhas vãs enroda,

Figura o nosso esforço e o nosso estado.

O dado e o feito, ambos os dá o Fado.


Sereno, acima de ti mesmo, fita

A possibilidade erma e infinita

De onde o real emerge inutilmente,

E cala, e só para pensares sente.


Nem o bem nem o mal define o mundo.

Alheio ao bem e ao mal, do céu profundo

Suposto, o Fado que chamamos Deus

Rege nem bem nem mal a terra e os céus.


Rimos, choramos através da vida.

Uma coisa é uma cara contraída

E a outra uma água com um leve sal.

E o Fado fada alheio ao bem e ao mal.


Doze signos do céu o Sol percorre,

E, renovando o curso, nasce e morre

Nos horizontes do que contemplamos.

Tudo em nós é o ponto de onde estamos.


Ficções da nossa mesma consciência,

Jazemos o instinto e a ciência.

E o sol parado nunca percorreu

Os doze signos que não há no céu.

#destino #existencialismo #fernando pessoa #nihilismo

Related poems →

More by Fernando Pessoa

Read "GLOSAS" by Fernando Pessoa. One of the best and most popular poems on The Poet's Place. Discover more trending, inspiring, and beautiful poetry by Fernando Pessoa.