SÃO JOÃO

by Fernando Pessoa · (no date)
Published 01/07/1880

Ó Precursor, fizeste-la bonita!

Não que teu Cristo, incarnação do Bem —

Não seja quem seja o teu Divino Anunciado.

O mal são os que após, sem mística divina

Nem ternura cristã, ou só humana,

Meteram a Jesus na cela da doutrina

Com as algemas do ódio manietado

Para depois manchar de falsa fé

O pobre homem que todo homem é


A cruel multidão negramente infinita

Que tem sido o algoz ou o ladrão

Da ingénua humanidade aflita —

Esses que, aqui mesmo, pelos modos,

Dão ao inferno realização...


Ah, não podiam ser piores, nem

Que a mulher do Diabo, se ele a tem,

Os tivesse parido a todos.


Eu bem sei que houve muito santo e crente,

Muito puro, bondoso e inocente.

Bem sei, bem sei:

Sei-o eu e sabe-o toda a gente.


Mas esses, cuja alma está em Cristo

São só isto —

Qualquer remédio que se dissolvesse

No chá que para isso há,

E cujo gosto nele se perdesse;

O chá fica sabendo só a chá.

Se o remédio faz bem,

Não o sabe ninguém.

Que o chá não presta, não duvida alguém.


Sabemos isso, e sabê-lo-ia antes

De todos nós teu Mestre que viria,

Profeta, Deus e guia dos errantes,

Quão dolorosamente o saberia?

Sei que houve astros no céu da fé vazia.


Sei, mas repara que falso isso soa!

Por mais astros que a noite use brilhantes,

Que Diabo!, a noite não se chama dia.


Ó Precursor! Fizeste-a boa!


Daí, para nós, és de Lisboa,

Não és o precursor de nada.

És um rapaz ainda menino

Que tem por missão boa,

Por missão sorridente e sossegada

Ter ao colo um cordeiro pequenino.


Lá o que esse cordeiro significa

Não tem cheiro

Para o povo, que tem a alma rica

Da emoção que não conhece.

Para ele o cordeiro é um cordeiro,

E o menino sorri e a vida esquece.


O resto são fogueiras

E os saltos dados a gritar

Com um medo exagerado

Feito tudo de maneira

A mostrar

O riso, as pernas e o agrado.

É quente e anónima a aragem,

Tudo é juventude e viço

Num arraial multicolor e vasto.

Bonito serviço

Como homenagem

A quem, ainda com cabeça, foi um casto!


Mas é assim que és

E é assim que serás,

Até que pisem esta terra os pés

Do último fado que o Destino traz.


Então, esperamos, eu e todos,

Ver-te «surgir no céu», como quem vence

Tudo que é realidade ou ilusão

Por o menino ser que lhe pertence,

E os seus bons e santos modos

«Com o cordeirinho na mão»,

Como te viu Catullo Cearense.


Mas, desçamos à terra,

Que, por enquanto, o céu aterra,

Porque antes disso mete a morte.

Há muita coisa desconhecida

Na tua vida.

Tens muita sorte

Em ninguém saber da partida

Que em mil setecentos e dezassete

Tu fizeste à Igreja constituída

Estás, eu bem sei, cansado

Com o que a Igreja se intromete

Com tua vida e o teu divino fado.


(E) foi então que, para te vingar

E à maneira de santo, os arreliar

Desceste mansamente à terra

Perfeitamente disfarçado

E fizeste entre os homens da razão

Um milagre assinado,

Mas cuja assinatura se erra

Quando em teu dia, S. João do Verão,

Fundaste a Grande Loja de Inglaterra.

Isto agora é que é bom,

Se bem que vagamente rocambólico

Eu a julgar-te até católico,

E tu sais-me maçon.

Bem, aí é que há espaço para tudo,

Para o bem temporal do mundo vário.

Que o teu sorriso doure quanto estudo

E o teu Cordeiro

Me faça sempre justo e verdadeiro,

Pronto a fazer falar o coração

Alto e bom som

Contra todas as fórmulas do mal,

Contra tudo que torna o homem precário.

Se és maçon,

Sou mais do que maçon — eu sou templário.


Esqueço-te santo

Deslembro o teu indefinido encanto.


Meu Irmão, dou-te o abraço fraternal.

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