Quem vende a verdade, e a que esquina?

by Fernando Pessoa · 28-3-1930
Published 28/03/1930

Quem vende a verdade, e a que esquina?

Quem dá a hortelã com que temperá-la?

Quem traz para casa a menina

E arruma as jarras da sala?


Quem interroga os baluartes

E conhece o nome dos navios?

Dividi o meu estudo inteiro em partes

E os títulos dos capítulos são vazios...


Meu pobre conhecimento ligeiro,

Andas buscando o estandarte eloquente

Da filarmónica de um Barreiro

Para que não há barco nem gente.


Tapeçarias de parte nenhuma

Quadros virados contra a parede...

Ninguém conhece, ninguém arruma

Ninguém dá nem pede.


Ó coração epitélico e macio,

Colcha de croché do anseio morto,

Grande prolixidade do navio

Que existe só para nunca chegar ao porto.

#absurdo #busca de sentido #existencialismo #fernando pessoa #inutilidade #vazio

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