O ANDAIME

by Fernando Pessoa · s. d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

O tempo que eu hei sonhado

Quantos anos foi de vida!

Ah, quanto do meu passado

Foi só a vida mentida

De um futuro imaginado!


Aqui à beira do rio

Sossego sem ter razão.

Este seu correr vazio

Figura, anónimo e frio,

A vida vivida em vão.


A esperança que pouco alcança!

Que desejo vale o ensejo?

E uma bola de criança

Sobe mais que a minha esperança.

Rola mais que o meu desejo.


Ondas do rio, tão leves

Que não sois ondas sequer,

Horas, dias, anos, breves

Passam — verduras ou neves

Que o mesmo sol faz morrer.


Gastei tudo que não tinha

Sou mais velho do que sou.

A ilusão, que me mantinha,

Só no palco era rainha;

Despiu-se, e o reino acabou.


Leve som das águas lentas,

Gulosas da margem ida,

Que lembranças sonolentas

De esperanças nevoentas!

Que sonhos o sonho e a vida!


Que fiz de mim? Encontrei-me

Quando estava já perdido.

Impaciente deixei-me

Como a um louco que teime

No que lhe foi desmentido.


Som morto das águas mansas

Que correm por ter que ser,

Leva não só as lembranças,

Mas as mortas esperanças —

Mortas, porque hão-de morrer.


Sou já o morto futuro.

Só um sonho me liga a mim —

O sonho atrasado e obscuro

Do que eu devera ser — muro

Do meu deserto jardim.


Ondas passadas, levai-me

Para o olvido do mar!

Ao que não serei legai-me,

Que cerquei com um andaime

A casa por fabricar.

#busca de identidade #desilusão #envelhecimento #existencialismo #fernando pessoa #memoria #passagem do tempo

3 likes

Related poems →

More by Fernando Pessoa

Read "O ANDAIME" by Fernando Pessoa. One of the best and most popular poems on The Poet's Place. Discover more trending, inspiring, and beautiful poetry by Fernando Pessoa.