XVI - Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois

by Alberto Caeiro · 4-3-1914
Published 04/03/1914

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois

Que vem a chiar, manhaninha cedo, pela estrada,

E que para de onde veio volta depois

Quase à noitinha pela mesma estrada.


Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas...

A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...

Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas

E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.


Ou então faziam de mim qualquer coisa diferente

E eu não sabia nada do que de mim faziam...

Mas eu não sou um carro, sou diferente

Mas em que sou realmente diferente nunca me diriam.

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