FRANZ: Isto de ser soldado

by Fernando Pessoa · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

            [FRANZ]:

Isto de ser soldado

Tem uma filosofia obrigatória

Como o pé ao fim da perna. Hoje vivo

Amanhã morto... D'aqui se conclui

Que sendo o vivo vivo enquanto é vivo

É morto é morto.

            OUTRO:

Tira-lhe o cangirão da mão oh Vesgo

            [FRANZ]:

Ia eu dizendo — deixa o cangirão! —

Que quem hoje vive e que não sabe

Se amanhã viverá é viver hoje

Por amanhã. Como isto de amanhã

Nem é aí um dia, mas é muitos

Enquanto a gente vive é ir vivendo

Em cada dia como se ele fosse

Uma vida completa

— Bravo o vinho

Faz a este pensar. O que diria

O teu tio bêbado, oh Francisco?

            [FRANZ]:

                                    É esta

A tal filosofia do soldado

A qual, senhores, a pensarmos bem

É a de toda a vida. E não é pouco.

            FAUSTO:

Dá-te o vinho razão, amigo. O homem

É um soldado. E este com certeza

De morrer no combate de amanhã.

Portanto a tal (...) filosofia

Que entre goles aí me gaguejaste

É mais certa que pensas, meu amigo.

É viver hoje que amanhã na vida

Não há talvez — é certo — vem a morte.

Bebo à saúde aqui do nosso amigo!

            TODOS:

À saúde do Franz!

            [FRANZ]:

                  Vá que o mereço!

Mas olha lá: dá cá o cangirão

Então só eu não beberei à minha?

            OUTRO:

Vá que é beber-lhe bem.

                              Não é por ser

Minha saúde. É só por ser vinho

Minha mãe! Minha triste vida!

Minha sorte!

            (Chora)

            OUTRO:

      O que é isso?

            [FRANZ]:

                        O cangirão

Não tem mais vinho! Caguei vida. Rei e corno!

Um rei corno — isso sabe a não sei o quê!

E o cangirão já não tem quase nada

O rei corno e eu sem vinho.

            (cai para debaixo da mesa)

            FAUSTO:

Arre que besta! Mas tem sua graça!

Está abraçado ao cangirão

Diz que é uma rainha.

            [FRANZ]:

                        Dá-me cá mais um gole

Que isto de leito e corpo de rainha

Não é com quatro goles que se entende.

Um rei corno — isso é grande! Alma danada

Onde é que me escondeste ó cangirão?

            (de debaixo da mesa)

Já o rei é corno!

            FAUSTO:

                  Lá quanto a Deus

Quando o sinto a amargar-me a boca muito

Faço isto

            (bebe)

      Tomo um gole. E vai p'ra baixo.

            TODOS:

Viva Fausto! Eia, viva! viva! viva!

            FRITZ:

Mas a vida rapaz?

            FAUSTO:

                        Caguei p'rá vida!

            FRITZ:

Toma! É assim rapaz! Canta-me dessas!

És cá dos meus, apesar de doutor...

            TODOS:

Doutor? Isto Doutor? Viva o Doutor!

            FAUSTO:

Morra o doutor e viva Fausto! É assim!

            TODOS:

Bravo. Morra o doutor e viva Fausto!

            FRANZ:

...Revolta... Não compreendo bem

Passa-me o cangirão que já te entendo.

Sem mais dois goles não percebo nada.

            FAUSTO:

Já percebes

Estupor avinhado? Já me entendes?

Isto de vida — ouve — é sentir tudo

Meter o agradável num só dia

Como o pé num chinelo. Deixa lá

O cangirão e ouve... Isto de vida

É a gente gozar e após gozar

Gozar mais, entendeste?

            FRANZ:

                              E depois disso?

            FAUSTO:

Depois disso gozar mais ainda.


— Deixa-o lá. Só tem força p'ra beber.

Não vê já mais que o olho do gargalo.

            FRITZ:

Que é isso?

            FRANZ:

Quero piscar o olho. Já me custa!

Arre! Ou fecho ambos ou então nenhum.

Bebendo mais um gole isto já passa...

            FAUSTO:

Eu queria obter

Uma enormidade de sensações

Daquelas mais intensas que nós temos

arrepio, calor, etcetra e tal...

Isso como diz o matemático

Elevado ao infinito e num momento

Aqui é que é tentar chegar...

            UM:

«Arrepio, calor, etcetra e tal»

O que não se diz fica por dizer.

#absurdo #alcoolismo #existencialismo #fernando pessoa #morte

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