FAUSTO (na taberna)

by Fernando Pessoa · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

      FAUSTO (na taberna)

Já não tenho alma. Dei-a à luz e ao ruído

Só sinto um vácuo imenso onde (a) alma tive...

Sou qualquer cousa de exterior apenas,

Consciente apenas de já nada ser...

Pertenço à estúrdia e à crápula da noite,

Sou ser delas, encontro-me disperso

Por cada grito bêbado, por cada

Tom de luz no amplo bojo das botelhas.

Participo da névoa luminosa

Da orgia e da mentira do prazer.

E uma febre e um vácuo que há em mim

Confessa-me já morto... Palpo em torno

De minha alma os fragmentos do meu ser

Com o hábito imortal de prescrutar-me

E não sei onde estou, ou quanto sou,

Em que terreno de ruído e (...)

Enterrei o meu espírito febril.

Mas não é inda o fim. Inda é preciso

Que a morte me desmembre em outro, e eu fique

Ou o nada do nada ou o de tudo

E acabe enfim esta consciência oca

Que de existir me resta.

Sinto um tropel esfuziante e quente

De propósitos-sombras, e de impulsos

Transbordado do cálix da consciência

Para cima da vida... Sinto em mim

Gritos de impulsos, (...)

Sinto que qualquer coisa vai fazer-me

Conceber o horror da acção e ousio

Em que dispersarei enfim o resto

Da minha alma já oca. Cesse, cesse

Para sempre a minha alma de ser minha,

Abafe-lhe a consciência de existir

A minha voz. Acorde a minha voz

Ao gritar os propósitos de sangue

E horror cujo (...) não concebo

E é forçoso que deixe fugir...

      (Alto)

                  Eia!

Camaradas! A orgia inda vai lenta!

Vamos a mais! Vamos a pôr no berço

As orgias romanas e a fazer

Os nossos feitos desta noite rir

De Nero e de Tibério! Vá que a vida

É pouca para (...) Eia, vamos!

Quem vive além na cidadela? O rei?

Bom. E a rainha? Melhor é. Quem mais?

As damas, os donzeis e os nobres todos

Da corte? Vamos à obra...


Ah, as damas. Violemos essa carne!

Rasguemo-la a espadim e a lança. Somos

A vingança dos servos! dos mandados

As crianças (...) e pequeninos

Seja nossa a hora última e (...)

Dos donzeis

Fogueira e (...) com os nobres todos

Afoguemos o rei no (...) onde

O mijo dos cavalos!

Vamos! Às carnes brancas! Aos veludos!

Não podem vir reforços. Se vierem

Morramos combatendo... A morte é hoje

Seja de hoje o gozo todo. Beba-se

O vinho todo, que a partir da taça

Será bom, pois que o vinho será gasto!


(Lança fogo à taberna... Saem todos de espadas desembainhadas... Correm e dançam pela estrada fora. Archotes agitam-se no ar, dançam, espalham lume... Seguem na estrada... Aqui e além incendeiam as choupanas.)

#crítica social #desespero existencial #fernando pessoa #intoxicação #nihilismo #rebelião #violência

2 likes

Related poems →

More by Fernando Pessoa

Read "FAUSTO (na taberna)" by Fernando Pessoa. One of the best and most popular poems on The Poet's Place. Discover more trending, inspiring, and beautiful poetry by Fernando Pessoa.