Dois horrores

by Fernando Pessoa · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

      Dois horrores

Me esmagam, cada um dos quais parece

O maior dos horrores que há maiores:

Um, o horror da morte, outro, o horror

De não poder evitar encontrar

Esse horror — ter que morrer. Dois...

Dois só horrores? Não. À roda destes

Giram milhares, interpenetrantes,

Complexos, uns dos outros produzidos

E nessa treva hedionda, nesse inferno

Que me tem lugar n'alma o pensamento

E o sentimento, horrorosamente

Conscientes e agudos cambaleiam,

Mergulham, desvariam, gritam, sangram,

Mas sempre claros, sempre conscientes,

Sempre em cada parcela desse horror,

Medindo todo o horror e descobrindo

Os outros e os outros e os outros

E assim sempre, assim sempre, sem parar,

Arrasto, em agonia inconcebida

De qualquer agonia imaginante

Doutros homens, a vida torturada,

Esta vida que a dor me faz eterna

E o horror da morte fugidia e mínima

Em toda a parte, todo o mundo, o horror.

#existencialismo #fernando pessoa #horror #morte #sofrimento

2 likes

Related poems →

More by Fernando Pessoa

Read "Dois horrores" by Fernando Pessoa. One of the best and most popular poems on The Poet's Place. Discover more trending, inspiring, and beautiful poetry by Fernando Pessoa.