Triste horror d'alma, não evoco já

by Fernando Pessoa · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

Triste horror d'alma, não evoco já

Com grata saudade tristemente

Estas recordações da juventude!

Já não sinto saudades como há pouco

Inda as sentia. Vai-se-me desmaiando,

Co'a força de pensar, contínuo e árido,

Toda a verdura e flor do pensamento.

Ao recordar agora apenas sinto

Como um cansaço só de ter vivido,

Desconsolado e mudo sentimento

De ter deixado atrás parte de mim,

E saudade de não ter saudade,

Saudade de tempos em que a tinha.

Se a minha infância agora evoco, vejo (

Estranho! — como uma outra criatura

Que me era amiga, numa vaga

Objectivada subjectividade.

Ora a infância me lembra como um sonho,

Ora a uma distância sem medida

No tempo, desfazendo-me em espanto;

E a sensação que sinto ao perceber

Que vou passando, já tem mais de horror

Que tristeza, apavora-me e confrange

E nada evoca nada a não ser o mistério

Que o Tempo tem fechado em sua mão.

Mas a dor é maior!

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