Cantos, sois sombras da minha alma. Todos

by Fernando Pessoa · s.d. (uncertain date)
Published 01/07/1880

Cantos, sois sombras da minha alma. Todos

Sois ilusões; minha alma canta em vós

Pedindo esse descanso que não tem.

Fugir de mim não posso.


      VOZ LÍMPIDA:


Venho d'além das estrelas,

Sou mais bela do que elas,

Cantar-te, Fausto,

Canções mais tristes que o mundo,

Cheias dum vagar profundo,

Té sorrir teu coração

Exausto.

Esta minha melodia

Fará abrir, como dia

No seu raiar,

Teu coração entornando

O seu fel antigo e brando

Como uma flor[?] e a ilusão

Voltar.


      OUTRA:


Eu chorarei sobre ti

Lágrimas de redenção.

Os meus cabelos compridos

Em que tantos envolvi

Tua face envolverão.


Nunca mais tu sentirás

Dentro em ti a sensação

De desolada desgraça;

És meu e comigo virás

Para a terra da ilusão.


No meu seio de luar

Ganharás como um perdão

Por tanta mágoa. Teus olhos

Dormirão, e ao acordar

Outra vez se cerrarão,

      Ao sono te voltarão.


(Fausto continua dormindo. A luz da lâmpada esvai-se lentamente e apaga-se. Noite e silêncio.)

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