Necropsia do Agora
by Bellefleur
· 11/04/2026
Published 11/04/2026 17:14
A preocupação me arranca em tiras,
me mastiga em silêncio, sem pressa,
faz do meu crânio uma sala vazia
onde o pânico entra e nunca regressa.
Noite em Carne Viva
A noite caiu como lâmina cega,
sem brilho, sem pressa, sem dó,
escorreu pelas frestas da alma
e fez do meu peito um nó.
As sombras cresceram nos cantos,
sussurram meu nome em vão,
trazendo à tona os espantos
que eu escondi na razão.
O silêncio aqui não é calmo,
ele pesa, arranha, corrói,
é como um grito sem som na garganta
que insiste… e nunca se foi.
Meus olhos vigiam o escuro
como quem teme enxergar,
porque às vezes o maior susto
é o que vem de dentro gritar.
E o tempo, cruel e lento,
se arrasta no chão do quarto,
cada segundo é um lamento
de algo em mim que está farto.
Se o sono vem, vem quebrado,
em pedaços que não me alcançam,
e eu fico ali, acordada,
colecionando lembranças.
É noite… e eu sou o próprio abismo,
olhando de volta pra mim,
porque quando tudo silencia…
é que o medo fala mais alto, enfim.
Ela não bate, arromba meus ossos,
se instala no pulso, corrói a razão,
faz do meu sangue um rio viscoso
onde afogo a própria respiração.
É unha cravada por dentro da mente,
rasgando certezas que eu nunca tive,
é um grito mudo, constante, latente,
um “fim” repetido que nunca se vive.
Eu apodreço em futuros que invento,
me enterro em cenários que eu mesmo criei,
sou carne tremendo no esquecimento
de tudo que um dia eu quase tentei.
Os “e se” me comem por dentro, famintos,
deixam meus ossos expostos ao ar,
fazem do tempo um campo extinto
onde nenhum agora quer ficar.
E eu sangro pensamentos em febre,
vomito imagens de pura aflição,
morro por dentro antes que a vida
encoste sequer a mão.
Não há saída, só queda constante,
um abismo morando em mim, sem chão,
porque o pior de todos os instantes
é viver sob a própria previsão.
Bellefluer🌸